Água fresca... para ideias com sede...

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domingo, abril 22

A cambada, José Eduardo Agualusa

Gosto do Agualusa. Da forma como escreve, do seu humor, ironia, sarcasmo.
Hoje, ao ler, na revista Pública, a sua coluna, não consegui, a certa altura, deixar de escapar uma sonora gargalhada, fazendo com que as pessoas que estavam no café ficassem a olhar para mim.
Acho que este texto deve ser lido, por isso aqui fica:

No dia em que esta crónica for publicada deverão estar reunidos em Lisboa representantes de vários grupos europeus de cabeças rapadas. Alguns destes grupos, e em particular aquele que convidou os restantes, só existem na exacta medida em que os seus críticos, criticando-os, lhe dão existência. Com esta crónica também eu estarei a propiciar visibilidade a uma insignificância. Faço-o, contudo, movido mais pelo riso do que pela revolta, convicto de que por muita atenção que os jornais lhe dêem tal grupo há-de ser sempre merecedor de atenção nenhuma. Merecem, no máximo, a atenção da polícia, enquanto arruaceiros ou pequenos assassinos cobardes.
Um tronco não deixa de ser um simples tronco, assegura um velho provérbio africano, por muito tempo que fique mergulhado na água: não, nunca se transformará em jacaré. O tronco em causa julga-se um jacaré. Alguns observadores julgam-no um jacaré. Acho a presunção ridícula, e não dramática, na medida em que não lhe vejo os dentes. Olho-o com atenção e vejo apenas um tronco. Um pequeno tronco patético, equivocado e insignificante. Sei que jamais terá dentes, dentes autênticos, e por isso olho para ele, ali aos gritos, "vejam, sou um jacaré!", e rio-me.
Não acredito que a extrema direita possa crescer em Portugal, como tem vindo a acontecer noutros países europeus, porque para que isso acontecesse seria necessário em primeiro lugar voltar atrás no tempo e refazer toda a história da Península Ibérica. Convém recordar, as vezes que for necessário, que Portugal e a Espanha são o resultado da colonização romana, somada a uma longa colonização africana, através dos árabes, e depois à presença de populações vindas de muitos portos que as caravelas alcançaram. Os árabes não foram expulsos. Ficaram em Portugal, cristianizaram-se e misturaram-se com a restante população. Os africanos trazidos para trabalhar nos campos, ou para servir nas cidades, também nunca regressaram aos seus territórios de origem. Foram para a cama com as portuguesas e fizeram-lhes filhos. Imensos filhos, graças a Deus, e todos eles muito mulatinhos (1). Os actuais portugueses descendem, na generalidade, desse anárquico e festivo e maravilhoso encontro de sangues e culturas. Eis que, acolá, nasce um menino com a tez mais escura. Outro, ali, expõe à clara luz do dia uma inequívoca carapinha. Em certas aldeias a população inteira revela singular resistência à malária. A própria língua trai, a cada frase, a origem de quem a fala. Dizemos minhoca e é nhoca, a cobra, que estamos a recordar em quimbundo. A mesma coisa acontece ao dizermos cambada, palavra que vem de camba, amigo, ou cachimbo, ou carimbo, ou caçula, entre tantas outras, e isto para ficar apenas pelo quimbundo, porque poderia ainda trazer a terreiro a contribuição dos africanos árabes, arriscando-me com isso a ocupar a revista inteira e a fatigar os meus leitores.
Poucas coisas unem a extrema direita europeia para além do ódio à mestiçagem - e negar a mestiçagem é, evidentemente, negar Portugal. Começo a rir (às gargalhadas) neste ponto: temos então um partido português que se diz nacionalista enquanto combate a ideia de Portugal. Temos uma meia dúzia de indivíduos que convidam a visitar Lisboa a mesma cambada, permitam-me a quimbundagem, que persegue indefesos imigrantes portugueses pelas ruas de Berlim, de Paris ou de Viena. Ponho-me a imaginar o que dirá um cabeça rapada português a um cabeça rapada alemão: "Bate-me mais, oh pásinho, bate-me lá que eu gosto!".
Talvez na opinião desta gente um português emigrado já não seja exactamente um português. Um português no estrangeiro há-de ser, aos olhos de um cabeça rapada português - um estrangeiro! E um estrangeiro merece apanhar. Pensarão por certo que imigrante é uma espécie de nacionalidade, um natural de Imigra, seja lá onde for que fique Imigra, República Popular, provavelmente em África. Sendo assim passa a ser possível expulsar, por exemplo, os angolanos radicados em Portugal. Se o governo angolano decidir retaliar não terá como pois, vendo bem, não existem imigrantes portugueses em Angola. O que há é Imigrantes. "Mandem-nos para Imigra", dirão os carecas, "República Popular, seja lá onde isso for, que nós por cá todos bem".
Que me perdoem os meus amigos do SOS-Racismo. Não lhes atirem pedras (coitadas das pedras). Atirem-lhes gargalhadas.


(1) Sublinhado meu (parte onde dei a forte gargalhada)

O golo de Messi...



Cópia fiel do de Maradona?



De facto, os dois golos são muito parecidos; mas, reparem, Maradona era esquerdino!
E mais... o golo de Maradona foi num campeonato do mundo (México, 1986), contra os ingleses, poucos minutos após o célebre golo da "Mão de Deus", e teve um sabor especial: os Argentinos tinham acabado de sair humilhados da guerra das Malvinas/Falkland.

sábado, março 24

M'bora lá kizombar

Amigo da banda deu-me a ver esta notícia.
Vamos lá m'bora dançar.

domingo, março 18

Por vezes, uma boa notícia...

Há já uns dias que não se posta nada neste blog.
Para além da falta de tempo, a disposição também não tem sido das mais famosas.
Hoje, fui ao Google procurar boas notícias. Acabei por entrar num site que pode tornar-se alternativa aos noticiários das nossas estações de TV.
Não vi muito, mas esta notícia agradou-me:

Gauri Nanda, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), anunciou a criação do "Clocky", despertador com cara de gato, que pula da mesinha de cabeceira e se esconde em um canto qualquer do quarto, quando dorminhocos inveterados apertam o botão que pára o alarme. O "Clocky" se locomove através de rodinhas e tem uma proteção de pelúcia que amortece o impacto da queda no chão. Nanda diz que a invenção foi inspirada nos bichanos que, todas as manhãs, davam mordidinhas nos pés para acordá-lo. Ele admite que a engenhoca é meio feia, mas que os futuros donos vão acabar adorando-a.

Ora digam lá se, para quem é preguiçoso, esta não é uma boa notícia? Eheheh

quarta-feira, março 7

Dia Internacional da Mulher (2)

Bem-dizendo a Mulher
(Texto adaptado)
...
Benditas as mulheres que persistem na execução de alguns ofícios humanitários no centro mesmo da batalha, no ponto culminante da selvageria. Mulheres que preferem expor seus corpos e se convertem a si mesmas em alvos, santuários e anteparos para a agressão e a violência...

Benditas as mulheres que não têm medo...

Benditas as mulheres desarmadas que têm de seu apenas as lágrimas e o sorriso, e a partir daí conseguem mudar o mundo e nele deixar sua marca...

Benditas as mulheres atentas e afáveis, ... Mestras carinhosas e pacientes,...

... Benditas as mulheres que (se) comunicam e falam. E falando com a boca, deixam falar o coração. E a boca transborda daquilo que o coração está cheio.

Benditas as mulheres cujas mãos ostentam delicadeza e suavidade. Mas ao mesmo tempo força e trabalho. Benditas mãos femininas que acalentam, ninam, trocam fraldas, fazem e dão comida. E ao mesmo tempo escrevem, digitam, apertam botões. Curam, carregam, constroem, plantam.
...
Celebremo-las, pois: (as) que suportaram a dor de ver os companheiros torturados e mortos pela violência. (Aquelas) que salvam os filhos ao preço e risco da própria vida. (Outras) que fazem do luto interminável e da dor sem remédio matéria-prima de luta vital e transformadora para que outros lutos não aconteçam...

Maria Clara Lucchetti Bingemer (teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio)

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