Água fresca... para ideias com sede...

domingo, julho 22

MAMUNIA

Mamunia aparecia toda vez que chovia.


A janela quebrada sempre me fazia correr para colar um pedaço de sacola de supermercado na minha vitrola 1976, para que os pingos não a encharcassem.

Era só olhar através do vidro partido e ver Mamunia caminhando pela rua e, de vez em quando, olhando para cima para certificar-se de que as gotas translúcidas estavam mesmo regando os seus cabelos.

Ela e sua blusa incrivelmente branca, sua pele alucinadamente negra, a cabeça bela e altívaga de quem passeia pelos campos.

Mamunia colecionava ventanias e cheiros de árvores secas, bem como poesias de ar e prenúncios de pássaros, que flutuavam ao redor dos seus olhos.

Suas mãos delicadas e imensas, seus braços leves, pontes maleáveis, tateavam toda a vizinhança como se fossem holofotes de rara luz. Gatos, cachorros e músicas gostavam de parar seus mundos quando eram, por seculares frações de segundos, tocados por ela.

Mamunia glorificava a chuva e dançava nas esquinas com o seu hálito quente de verão, soprando calçadas e dando rápidos sustos em descuidados corações.

Era bom saber que ela viajava de nuvem e que semeava relâmpagos e pequenos vaga-lumes nos porões e sótãos.

Um dia Mamunia me deu um beijo na boca e eu nunca mais sofri de solidão.


3 comentários:

Toke disse...

Oi grande Edu!
Belo texto o do beijo de Mamumia!

Amigos e frequentadores deste moringue, onde a água é fresca para as ideias com sede, tenho o prazer de apresentar o grande amigo Edu, brasileiríssimo de Goiás, beatlemaníaco de coração...

Abração (arlã()!

Ana B. disse...

Belo texto, Edu!
Bem vindo ao Moringue.
Vida nova para este lugar!
Abraço

Carlos Edu Bernardes disse...

Obrigado amigos Toke e Ana pelas boas vindas! Espero contribuir para o sucesso do Moringue. Vi que é um lugar cheio de feras. É uma honra estar aqui!

Abraçã() a todos!

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