... mas mão amiga fez o favor de me enviar por e-mail:
Dois anos antes do ataque às Torres Gémeas, eu estava no sopé delas, num gabinete, a ser puxado pelas orelhas. Um rapariga mestiça, até aí gentil, enxofrou-se quando eu disse a palavra slaves (escravos): "Não diga isso, diga enslaved people [pessoas escravizadas]". E explicou-me, dedo em riste, que o termo slaves fazia supor que as pessoas aceitavam essa condição, ao contrário da alternativa dela que mostrava que a condição lhes era imposta.
Eu procurava documentação sobre os primeiros negros de Nova Iorque, que foram angolanos. Estes eram homens livres (daí escravo ter vindo à baila), agricultores na cidade que ainda se chamava Nova Amesterdão, a documentação era escassíssima e o essencial estava naquele gabinete. Não quis indispor a dona da casa, mas ainda disse que via mal que a palavra escravo escondesse a verdade. Ela olhou para mim e rematou: "Você não pode entender." Eu, pessoalmente, confesso que não posso entender a extensão daquela dor que era ser escravo. Talvez possa imaginar, mas sem livros nem filmes não vou longe. Porém, a mestiça não falava para mim, falava ao caucasiano, como na América se chama aos pálidos como eu. E o que a levava a pensar que o pálido fosse desprovido de escravos na família? Sou um simples Fernandes, portanto filho de um qualquer Fernando, com a dose normal de servos que coube aos transmontanos. E provavelmente com cativos, como acontecia aos europeus do Sul, escravizados pelos corsários argelinos ainda no séc. XIX. Ser branco não traz imunidade em escravidão. Aliás, o termo em discussão, aquele slave inglês, é revelador. Vem de eslavo - os branquíssimos que os morenos romanos preferiam para servos.
Eu não podia entender, disse a minha mestiça, como se ela pudesse. Quando ela, na lógica epidérmica dela, só parte dela podia entender - a negra, presumo. Caridoso, fiz-lhe o favor de não lhe contar, eu que estava ali para procurar dados sobre angolanos da América, que a casa mais imponente da capital desse país de onde eles vieram era o Palácio da D. Ana Mulata. A mais rica de Luanda, à custa da escravidão.
Isto de culpas históricas faz-me lembrar, para não fugir das Torres Gémeas, a Al-Qaeda: Espanha deve pagar por ter expulsado os árabes em 1492, do Al-Andalus. E como devem reagir os filhos dos godos, corridos a golpes de cimitarra por esses mesmo árabes, em 711? Invasores e invadidos, não há virgens na História. Se Jorge Sampaio me permite uma sugestão, agora que está no diálogo entre civilizações, deveria tentar abolir uma palavra, quando colocada no contexto colectivo. A palavra é arrependimento. É uma palavra pessoal. Só.
Ferreira Fernandes, jornalista do DN
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