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domingo, novembro 11

Angola - 32 anos... e o futuro?

Hoje celebram-se 32 anos de independência com os olhos postos no futuro.


Foto de Tonspi

terça-feira, julho 3

segunda-feira, junho 18

Batismo de Sangue - filme


Levei dez anos para escrever "Batismo de Sangue" (editora Rocco), de 1973, ao sair de quatro anos de prisão, a 1983. Reviver toda a saga de um grupo de frades dominicanos na luta contra a ditadura militar fez-me sofrer. Revirei a memória, fiz entrevistas e pesquisas, revisitei os locais dos acontecimentos, consultei arquivos. Sim, arquivos. O governo federal, comandado por dois ex-presos políticos (Lula na Presidência e Dilma Rousseff na Casa Civil), desconsidera a memória nacional ao não abrir os arquivos das Forças Armadas. Felizmente existem arquivos fora do controle militar. Sobretudo arquivos vivos, sobreviventes da grande tribulação.

Deu-me trabalho levantar os últimos momentos do líder revolucionário Carlos Marighella e o intrincado cipoal em torno de seu assassinato pela repressão, em 4 de novembro de 1969. E doeu-me descrever em detalhes a paixão e morte de frei Tito de Alencar Lima, levado ao suicídio em 1974, aos 28 anos, em decorrência das torturas sofridas nas dependências do II Exército, em São Paulo. Queriam forçá-lo a assinar confissões falsas e delatar pessoas. Não escutaram senão o silêncio daquele religioso que sabia ser "preferível morrer do que perder a vida", como escreveu em sua Bíblia.

Um dia dei o livro a Helvécio Ratton, que também militou na resistência à ditadura e esteve exilado. Escrevi na dedicatória: "Helvécio, a vida supera a ficção". Diretor de cinema, ele tomou a si o desafio e levou às telas "Batismo de Sangue", que estréia a 20 de abril. As cenas - ambientação precisa dos anos 60 - foram rodadas no Brasil e na França. Integram o elenco Caio Blat (no papel de Frei Tito), Ângelo Antônio (frei Oswaldo), Léo Quintão (frei Fernando), Odilon Esteves (frei Ivo), Daniel de Oliveira (que me interpreta), Marku Ribas (Carlos Marighella), Marcélia Cartaxo (Nildes), Cássio Gabus Mendes (delegado Fleury) e outros.

Filmes nem sempre retratam adequadamente os livros nos quais se inspiram. Em geral, a literatura ganha em profundidade da arte cinematográfica, obrigada a condensar-se num par de horas. O livro, traduzido para o francês e o italiano (e, em breve, para o espanhol), merecedor do mais conceituado prêmio literário do Brasil, o Jabuti, atrai o interesse dos leitores desde sua publicação há 24 anos. Falei ao Helvécio: "Livro é livro, filme é filme; não quero interferir." O máximo que solicitou, a mim e aos frades Fernando de Brito, Oswaldo Rezende e o ex-dominicano Ivo Lesbaupin, foi conversar com os atores sobre a nossa experiência na guerrilha urbana e na prisão. Li o roteiro de Dani Patarra, considerei-o excelente, mas preferi não opinar.

Em março, no Festival de Brasília, vi o filme pela primeira vez. Fiquei transtornado: arrancou-me lágrimas, reavivou-me a indignação contra o arbítrio, ativou-me as teias da emoção, enlevou-me pela trilha sonora, fez-me agradecer a Deus pertencer a uma geração que, aos 20 anos, injetava utopia nas veias. Fiquei embevecido frente à força estética das imagens produzidas pelo talento de Helvécio Ratton. O Festival de Brasília concedeu-lhe os prêmios de Melhor Direção e Melhor Fotografia (Lauro Escorel). No Festival de Tiradentes, a platéia de mais mil pessoas, a maioria jovens, expressou a emoção em prolongadas palmas.

A arte brasileira adianta-se ao governo e escancara os bastidores da ditadura. Este é um filme a ser visto especialmente por quem não viveu os anos de chumbo. Ali está o estupro da mãe gentil, gigante entorpecido, o Brasil sem margens plácidas, arrancado do berço esplêndido, resgatado à democracia pelos filhos que, por amor e esperança, e sem temer a própria morte, não fugiram à luta.

"Batismo de Sangue" é um hino à liberdade. Nele se revela a história recente de uma nação e a fé libertária de um grupo de cristãos. Emerge, contundente, a subjetividade dos protagonistas, como frei Tito, em quem se transubstanciou a dor em amor, o sofrimento em oblação, as algemas em matéria-prima desta invencível esperança de construirmos um mundo em que a paz seja filha da justiça, e a felicidade, sinônimo de condição humana.

Frei Betto, aqui

Veja aqui a apresentação do filme baseado no livro com o mesmo nome.

Aqui encontrará o site do filme e aqui uma notícia sobre o dia em que os frades dominicanos, ordem a que pertence Frei Betto, foram assistir.

sábado, maio 5

Lembrar é preciso...

Um homem trabalha entre alguns dos 2711 blocos de granito do Memorial do Holocausto, no centro de Berlim.
Idealizado pelo arquiteto americano Peter Eisenman, o memorial recorda os 6 milhões de Judeus mortos pelos nazis durante a IIª Guerra Mundial.
Veja uma descrição deste memorial aqui, aqui e aqui.

quarta-feira, abril 25

Uma no cravo, outra na ferradura


25 de Abril
NUNCA MAIS!!!
Na madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974, os capitães das forças armadas portuguesas rebelaram-se contra os restos de um Estado Novo menos reformista do que situacionista, onde apesar da relativa brandura do discurso marcelista se mantinha tudo na mesma.

Indignados com a sua situação profissional, e com uma guerra controlada mas sem fim à vista nas colónias africanas, os capitães das forças armadas, na altura extremadamente politizados, desencadearam uma mudança de regime que atingiu a sociedade portuguesa como um terramoto.




Às pias verdades bafientas de trazer por casa, legitimadoras da supressão das liberdades individuais e colectivas do velho regime, sucederam-se, do dia 25 de Abril em diante e durante alguns anos, todas as utopias igualitárias, tentações totalitárias "à là cubana", e a instauração de um anacrónico Conselho da Revolução autolegitimado a que só se pôs um justo cobro nos anos 80, inflamados discursos demagógicos prometendo amanhãs que cantam, como se a mera mudança de regime fosse uma mágica varinha com o condão de tirar o país de profundos atrasos estruturais e culturais de decénios, quiçá de séculos. Para nem falar numa descolonização nada exemplar.


Um natural movimento de pêndulo fez-se então sentir na sociedade portuguesa que virava agora à esquerda - uma esquerda extremada e sonhadora -, com uma inércia em movimento contrário àquele em que vivera durante quase 50 anos de ditadura direitista salazarenta.


A partir dos anos 80 Portugal entrou em normalidade democrática com a regularidade da realização de pleitos eleitorais, com a permanente consumação dos direitos, liberdades e garantias do cidadão, e com a prossecução de um estado de direito em construção, Portugal é hoje uma democracia moderna em construção, com equilíbrio e independência de facto entre os poderes.
Com todos os defeitos de que enfermam as democracias modernas (a democracia é o menos mau de todos os sistemas políticos), o ordenamento político-jurídico-institucional português pode ser considerado um caso de sucesso, um orgulho nacional.
Longe vão os tempos em que se conspirava política e militantemente contra um regime anquilosado, em que se sonhava com uma revolução redentora da alma portuguesa.
Por isso digo: que não sejam precisos novos 25 de Abril!
Por isso digo: 25 de Abril NUNCA MAIS!!!

PS - Clicar sobre as fotografias para aceder a mais informação.

A senha para a LIBERDADE

Ouça na Rádio Vila Morena e leia aqui

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza, enfim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós.

José Niza

domingo, fevereiro 25

segunda-feira, janeiro 29

Ferrados


Estas figuras representam as marcas com que os escravos angolanos eram ferrados pelos seus donos, como se de animais se tratasse.

Ondulando a bandeira do cristianismo, os portugueses chegaram a Angola em 1483 tendo, na verdade, como finalidade o agenciamento de milhões de escravos para as Américas.
Após o estabelecimento dos portugueses na costa de Luanda, o comércio de escravos e de marfim tornou-se a sua principal actividade, começando para o efeito as campanhas militares para o interior de modo a capturar e vender africanos.
Os horrores da escravatura deixaram marcas indeléveis em Angola. Durante mais de 300 anos, cerca de 4 milhões de escravos angolanos foram enviados para as plantações do Brasil e para as minas do México. 30% de todos os escravos iam de Angola. De todos os capturados no interior de Angola, só um quarto chegava vivo ao outro lado do Atlântico. Em três séculos de comércio esclavagista em Angola, estima-se que 12 milhões morreram.

O comércio de escravos teve um papel muito importante na história de Angola, e entre o séc. XV e o séc. XIX, os africanos eram trocados por armas, pólvora, álcool, e outros artefactos.
A partir de dois portos chave, Luanda e Benguela, o comércio esclavagista floresceu. Em Benguela, ficaram famosos os "quintalões", onde os escravos eram mantidos presos.

(Quintalões em Benguela)

No séc. XVI, Luanda tornou-se o centro da presença portuguesa em Angola. Ligada directamente ao comércio de escravos levados para o Brasil, transformou-se no final da viagem das "caravanas" de escravos vindas do interior. Vários edifícios são ainda a memória desse tempo: o porto, fortes, igrejas e capelas, mercados, quintalões, mas também os lugares de resistência e refúgio, de pessoas que se tinham tornado mercadoria para os europeus, vendidas no Terreiro Público.
No séc. XIX, D. Ana Joaquina torna-se a maior comerciante de escravos de Angola, a par de outros negócios.

(Palacete de D. Ana Joaquina, Luanda)

Já a Igreja desempenhou também um importante papel na "cristianização" dos escravos, que tinham de ser baptisados antes de serem levados para os navios negreiros como carga, passando a simbolizar a opressão e a oposição às religiões e práticas animistas africanas e mantendo-se como um testemunho da violência da escravatura.

A partir de 1840, os colonos brancos avançam para o interior, depois de fortes rumores acerca das riquezas fabulosas de minerais e também da terra fértil para a agricultura. Para assegurar a terra, Portugal então envia forças expedicionárias, que se prolongam por cerca de 100 anos. Inicialmente, houve forte resistência dos habitantes locais, que para o final sucumbiram à força de fogo dos invasores. O resto da história, alguns de nós presenciámo-la...

Ver aqui informação interessante. E, já agora, vejam este documento.

domingo, janeiro 28

Angola Farm

Não sei como dei com este texto, mas como acho que pode ser um bom tema de discussão, aqui fica:

Da Capital do Império

Olá!
"Angola USA". É um título giro para uma grande reportagem fotográfica ou um documentário de televisão. Infelizmente não tenho "massa" nem financiadores para isso. Os angolanos – que têm muita "massa" e seriam em teoria os mais interessados – herdaram dos portugueses a atitude de "quero lá saber" pelo que a perspectiva de fazer a tal reportagem ou documentário é presentemente tão grande como a possibilidade dos EUA deixarem de ser a potência mundial no próximo século.
Mas deixem-me explicar-vos de onde me surgiu a ideia.
Há alguns anos atrás, acabadinho de chegar aqui aos "states" fui ao pequeno estado de Delaware fascinado com o facto de uma cidade à beira mar ter exactamente o mesmo nome que uma cidade na Namíbia – Rehoboth. Nada de extraordinário nessa coincidência. Coisas dos holandeses que talvez devido à falta de imaginação repetiam nomes pelo seu vasto império e neste caso nem sequer fizeram aquilo que todos os colonos, incluindo eles próprios, os tugas e os bifes faziam na generalidade ou seja acrescentar a palavra "nova" ao nome de todas cidades.
Nova Lisboa, Nova Iorque, Nova Hampshire, Nova Amesterdão, são assim provas da capacidade criativa assustadora dos colonos em termos de nomenclatura. Mas isso é outra questão.
O importante aqui é que ao ir para Rehoboth deparei com um grande sinal que dizia "Angola Farm".
Tenho a admitir que ao ver o sinal a primeira reacção que tive foi a de inveja. "Sacana do retornado comprou uma machamba aqui na América e está rico," foi o que pensei.
Santa ignorância! Alguns meses depois tive que fazer uma notícia sobre uma execução de um criminoso qualquer que se ia realizar no Luisiana e deparei com o nome de Angola. É o nome da maior prisão desse estado e onde são executados os condenados à morte da Luisiana. (Angola e morte… estamos juntos! diriam alguns)
Telefonei à prisão para saber de onde vinha o nome e de lá disseram-me que era o nome de uma plantação. O subchefe lá da prisão (vejam lá!) sugeriu que eu telefonasse à Universidade da Luisiana e pedisse para falar para o Departamento de História. O que fiz. E que me levou a manter uma interessante conversa com um professor que me explicou que nos tempos da escravatura os donos das plantações tinham como hábito dividir os escravos em grupos. Para a brancalhada proprietária aparentemente só havia dois grupos de escravos: Os "angolas" e o resto. Portanto as plantações onde trabalhavam os "angolas" ficaram conhecidas como Angola. Daí a tal Angola no Luisiana, a Angola Farm no Delaware. Aparentemente há mais antigas plantações "Angola" espalhadas pelo sul. No estado da Virgínia houve uma plantação Angola que pertenceu inicialmente a um tal Anthony Johnson que era na verdade "António, o Negro" que foi libertado pelo seu patrão um tal Johnson. O António adoptou o nome do patrão, e comprou terra que chamou de "Angola". Mais tarde foi para o estado de Maryland onde iniciou o cultivo numa propriedade chamada… Angola. Há também Angola no estado de Nova Iorque (missionários que trabalhavam com os escravos ou em Angola deram-lhe o nome) e Angola no estado do Indiana (Uns tipos que "emigraram" de Angola em Nova Iorque para o Indiana deram-lhe o mesmo nome. Deviam ser holandeses porque se esqueceram de acrescentar a palavra "nova").
Antes de avançar mais tenho que fazer um parêntesis para vos contar que há alguns anos atrás um jornalista de Lisboa acordou-me muito cedo, muito excitado, para eu lhe dar mais pormenores sobre um "documentário sobre Angola" que tinha acabado de ser nomeado para um Oscar. Para sua desilusão tive que lhe dizer que o documentário era sobre Angola no Luisiana. Tive que depois que lhe explicar que não era palavra trazida por um retornado.
Mas estas Angolas no Luisiana e em Delaware despertaram-me o interesse. E aprendi muito. Vocês sabem por exemplo que as estimativas são que 40% de todos os escravos que aqui chegaram vieram de Angola? Sabem por exemplo que os primeiros africanos a chegar ao que é hoje os Estados Unidos vieram de Angola? Uma delas chamava-se Ângela. Está registada nos arquivos de Jamestown no estado da Virgínia. Teve sorte. Trabalhou como serviçal doméstica para um capitão inglês e sua excelentíssima esposa.
Sabem que os primeiros escravos a serem levados para a cidade de Nova Iorque eram todos eles sem qualquer excepção de Angola? Um dos primeiros foi "Groot Manuel", ou Grande (em Holandês) Manuel. Outros foram Paulo Angolo, Little Manuel, Manuel de Reus, Anthony Portuguese, Garcia São Tome, Susana d'Angola, Samuel Angola, Emmanuel van Angola, Andries van Angola. Tudo bem documentado. Visto com os meus próprios olhos num museu em Nova Iorque.
E mais: Sabem por exemplo que a Carolina do Sul foi o estado que mais angolanos recebeu? E que há historiadores americanos que pensam que os angolanos foram aqueles que mais influência deixaram entre a população negra americana que contudo pensa que vieram todos do Senegal ou da Nigéria? (alguns pensam que os escravos vieram todos da África do Sul por causa do apartheid e ficam muito chateados quando se lhes diz que dali não veio nem um e que portanto não podem ser família do Nelson Mandela).
Sabem que no dia 9 de Setembro faz 267 anos que se iniciou a maior revolta de escravos dos Estados Unidos liderada por um angolano de nome Jemmy? Foi na Carolina do Sul e os escravos mataram uma série de proprietários brancos a caminho da Florida onde esperavam encontrar a liberdade. Começou por ser um pequeno grupo de 20 angolanos que depois cresceu rapidamente para mais de 100. Mataram também crianças brancas, só porque eram brancas. Acontece neste tipo de guerras. Foram apanhados e os líderes tiveram as cabeças decepadas e colocadas em estacas para servir de aviso a outros escravos. Acontece neste tipo de guerras.
Índios foram contratados pelos brancos para os apanharem e outros negros que se recusaram a juntar aos revoltosos foram mais tarde recompensados.
Enfim tudo fascinante. Creio que dá um excelente documentário ou reportagem fotográfica. Angola USA.
Se souberem de algum financiador digam-me. Agucem-lhe o apetite com outra reportagem deliciosa: "Lisbon USA". É verdade. Há muitas Lisbons aqui nos states. Um dia falo-vos sobre isso.
Para já um abraço,
Aqui da Capital do Império.

Jota Esse Erre (que eu não sei quem é!!!!)

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