Água fresca... para ideias com sede...

quarta-feira, maio 2

O que não li no Diário de Notícias...

... mas mão amiga fez o favor de me enviar por e-mail:

Dois anos antes do ataque às Torres Gémeas, eu estava no sopé delas, num gabinete, a ser puxado pelas orelhas. Um rapariga mestiça, até aí gentil, enxofrou-se quando eu disse a palavra slaves (escravos): "Não diga isso, diga enslaved people [pessoas escravizadas]". E explicou-me, dedo em riste, que o termo slaves fazia supor que as pessoas aceitavam essa condição, ao contrário da alternativa dela que mostrava que a condição lhes era imposta.

Eu procurava documentação sobre os primeiros negros de Nova Iorque, que foram angolanos. Estes eram homens livres (daí escravo ter vindo à baila), agricultores na cidade que ainda se chamava Nova Amesterdão, a documentação era escassíssima e o essencial estava naquele gabinete. Não quis indispor a dona da casa, mas ainda disse que via mal que a palavra escravo escondesse a verdade. Ela olhou para mim e rematou: "Você não pode entender." Eu, pessoalmente, confesso que não posso entender a extensão daquela dor que era ser escravo. Talvez possa imaginar, mas sem livros nem filmes não vou longe. Porém, a mestiça não falava para mim, falava ao caucasiano, como na América se chama aos pálidos como eu. E o que a levava a pensar que o pálido fosse desprovido de escravos na família? Sou um simples Fernandes, portanto filho de um qualquer Fernando, com a dose normal de servos que coube aos transmontanos. E provavelmente com cativos, como acontecia aos europeus do Sul, escravizados pelos corsários argelinos ainda no séc. XIX. Ser branco não traz imunidade em escravidão. Aliás, o termo em discussão, aquele slave inglês, é revelador. Vem de eslavo - os branquíssimos que os morenos romanos preferiam para servos.

Eu não podia entender, disse a minha mestiça, como se ela pudesse. Quando ela, na lógica epidérmica dela, só parte dela podia entender - a negra, presumo. Caridoso, fiz-lhe o favor de não lhe contar, eu que estava ali para procurar dados sobre angolanos da América, que a casa mais imponente da capital desse país de onde eles vieram era o Palácio da D. Ana Mulata. A mais rica de Luanda, à custa da escravidão.

Isto de culpas históricas faz-me lembrar, para não fugir das Torres Gémeas, a Al-Qaeda: Espanha deve pagar por ter expulsado os árabes em 1492, do Al-Andalus. E como devem reagir os filhos dos godos, corridos a golpes de cimitarra por esses mesmo árabes, em 711? Invasores e invadidos, não há virgens na História. Se Jorge Sampaio me permite uma sugestão, agora que está no diálogo entre civilizações, deveria tentar abolir uma palavra, quando colocada no contexto colectivo. A palavra é arrependimento. É uma palavra pessoal. Só.

Ferreira Fernandes, jornalista do DN

PS - Ver este post e este

1 comentário:

Poliedro disse...

"Slaves" ou "enslaved people" nunca entraram no dicionário do meu pensamento ou no dicionário das poucas palavras sensatas que traduzem algo de muito importante que sempre direccionaram a minha sobriedade e o meu carácter.
Um dia escrevi um texto, só para quem gosta de ler, sentindo-se um pouco arrepiado, a minha descrição do que entendo por um pensamento prisioneiro de si próprio. Só de pensar nisso sinto-me muito cabisbaixo e, mesmo, triste, desgostoso. A Humanidade e todas as pessoas do nosso Planeta, nascem livres e, livres, devem viver e permanecer até um dia, em que alguém nos vem buscar para conversarmos com Deus. As "prisões" mais atrozes situam-se aí, no pensamento, quando não há força para inovar, respeitar, existir, viver, amar.
O "big-bang" aconteceu para criar pessoas felizes e, se em tempos, houve "slaves" ou "enslaved People" é muito lamentável. Horrível mesmo.
A mensagem que retiro do artigo é que, em todas as sociedades existem pessoas oprimidas, fruto de guerras e ódios incompatíveis com a minha forma de encarar a vida, a experiência admirável e notável que constituem "estar cá". O deslumbre. A magia. O encanto. Estarei sempre ao pé das minorias oprimidas para auxiliá-los no que puder: A LIBERDADE TOTAL. É que sabem, para mim, a vida é uma poesia livre, terna, suave, doce e bela, acreditem ou não!
Nunca deixarei de sonhar a vida. A vida em total e completa liberdade! A minha vida! A vida de todos em geral!
Com estima.
Abraço
pena

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